O Museu
Há objetos que parecem ter chegado ao fim. Uma cadeira que já não é usada. Uma máquina que foi substituída. Um utensílio que perdeu sua função. Uma fotografia guardada em uma gaveta. Uma ferramenta que há anos não sai do canto da casa. Essas coisas podem parecer apenas “coisas antigas”, mas são vestígios de histórias. O fim da vida das coisas é uma pesquisa sobre objetos do cotidiano que estão desaparecendo, sendo substituídos ou perdendo suas funções, mas que ainda carregam consigo uma parte importante da história e da memória de Pernambuco.
Ao percorrer o litoral, a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão, o projeto procura objetos que, de algum modo, contam histórias sobre os lugares onde viveram. Objetos de trabalho, de casa, de festas, de cuidados, de brincadeiras, de ofícios e de afetos. Coisas simples, muitas vezes anônimas, que acompanharam a vida de pessoas e comunidades.
Porque as coisas não são apenas coisas. Nós damos nomes a elas, guardamos, consertamos, herdamos, esquecemos. Algumas atravessam gerações. Outras desaparecem tão discretamente que, quando percebemos, já não sabemos mais como eram, para que serviam ou quem as utilizava.
Um objeto pode guardar a lembrança de uma pessoa. Pode fazer lembrar uma casa que já não existe, um trabalho que deixou de ser praticado, uma infância, uma festa, uma paisagem ou um modo de viver. Pode revelar diferenças entre regiões, famílias e grupos sociais. Pode nos fazer perceber que a história também está presente nas pequenas coisas que nos cercam. É essa dimensão afetiva que nos interessa.
Ao olhar para esses objetos, procuramos compreender o que eles fazem lembrar.
Que histórias despertam?
Quem os utilizou?
Em que lugares estiveram?
Que transformações da vida
cotidiana ajudam a contar?
O que acontece quando uma coisa
deixa de ser necessária, mas continua sendo
importante para alguém?
A pesquisa parte da ideia de que os objetos possuem uma espécie de vida social. Eles entram em nossas casas, em nossos trabalhos e em nossas relações; acompanham mudanças, atravessam épocas e, algumas vezes, permanecem conosco mesmo depois de perderem sua função. É justamente nesse momento — quando uma coisa deixa de ser útil e passa a ser lembrança — que ela pode adquirir outro tipo de valor.
Por isso, este projeto também é uma forma de escuta. Em cada lugar visitado, buscamos pessoas dispostas a contar as histórias relacionadas aos objetos escolhidos. Conversamos, observamos, fotografamos e filmamos. Registramos não somente as coisas, mas também os espaços, os gestos, as pessoas e os contextos que fazem parte de suas histórias.
Ao reunir essas histórias, o projeto procura construir um acervo afetivo da cultura pernambucana: uma coleção de objetos, imagens, vozes e memórias capaz de revelar diferentes modos de viver e perceber o estado.
Queremos olhar para aquilo que muitas vezes passa despercebido. Para as coisas comuns. Para aquilo que esteve tão presente em nossas vidas que quase não percebemos sua importância.
O resultado dessa caminhada é este museu virtual, que reúne fotografias, microfilmes e narrativas sobre os objetos encontrados durante a pesquisa. É também um espaço para aproximar pessoas, lugares e histórias que, embora pertencentes a diferentes regiões de Pernambuco, compartilham a experiência de viver, trabalhar, lembrar e construir a vida através das coisas.
Além do museu virtual, a pesquisa dá origem a um e-book e a um filme documentário, reunindo outras camadas dessa investigação.
O fim da vida das coisas é uma pesquisa realizada a partir de Pernambuco, sobre as coisas e as pessoas que dão sentido às coisas. Uma viagem por Pernambuco através dos objetos, das memórias e das histórias que eles guardam. Um mergulho na cultura material cotidiana e um convite para olhar novamente para aquilo que já conhecemos.













